Coluna Micros e Cia. – 16/11/2003

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Preparar para a decolagem

Se você está à procura de emprego, ou simplesmente gosta de tecnologia (deve gostar, para estar lendo este caderno, não?), e pensa em um dia ganhar dinheiro com isso, prepare-se, arme-se, afie seus machados. Para ontem. Acontece que 2004 promete. Depois da estagnação de 2003, é até natural que a situação venha a melhorar — não dá para ficar muito pior. Mas nas duas últimas semanas foram anunciadas previsões, por diversos institutos de pesquisa, que confirmam a expectativa otimista. E até mostram que 2003 não foi um ano tão ruim assim.

A Associação Brasileira de Indústria Elétrica e Eletrônica prevê um crescimento de 13% em relação a 2003, que já foi 12% melhor em faturamento que 2002. A área de informática, sozinha, cresceu 14% — e o interessante é que, apesar de a importação de eletrônicos ainda ser maior, a diferença para a exportação diminuiu em 17%. Ou seja, há uma produção interna crescente, que poderá disparar quando o governo colocar em ação seus planos para a indústria de componentes. No mundo todo, segundo o instituto IDC, as vendas de PCs cresceram 11,4% em 2003, três pontos a mais que o previsto, e deverão crescer no mesmo ritmo no ano que vem.

A previsão internacional do instituto Gartner foi anunciada na última quinta-feira e traz a boa nova de que vários grandes projetos de informatização ou modernização deverão ser retomados em 2004. Há ainda as previsões de que empresas latino-americanas com escritórios em Miami voltarão para seus países, e que os investimentos em tecnologia crescerão 6,4% em relação a 2003. Isso quer dizer mais empregos, mais dinheiro circulando no setor, e crescimento da região. Segundo o Gartner, o Brasil será o puxador do movimento na América Latina, seguido pelo México e pela renascente Argentina. O país deverá começara se tomar um importante centro de serviços — mas o Gartner alerta que é preciso correr para aumentar as certificações das empresas, como a tão falada CMM, para o mesmo nível de Índia e China.

 

Cômoda burrice

O New York Times de domingo disse: Powerpoint deixa as pessoas mais burras. Na verdade, não se trata de algo exclusivo do famoso, útil e eficiente programa de apresentações da Microsoft. A acusação pode ser feita contra qualquer programa equivalente, como o gratuito e livre OpenOffice Impress. Simplesmente calha de ser o Powerpoint o representante maior dessa categoria, e por isso ter sido o saco de pancadas em um livreto de 28 páginas de Edward Tufte, um especialista em apresentação de informação bastante conhecido nos Estados Unidos. O nome do livro é O estilo cognitivo da Powerpoint, e nele o autor critica a forma com que os programas de apresentação — no caso, o da Microsoft— são utilizados. Como exemplo, Tufte cita o relatório da comissão que investigou o acidente da nave espacial Columbia. O texto, divulgado em agosto, aponta que quando os engenheiros descobriram o rompimento da carenagem da nave durante a decolagem, tentaram explicar o ocorrido em apresentações tão confusas — repletas de marcadores e formulários padronizados do Powerpoint — que nem especialistas poderiam entender que se tratava de um problema sério que levaria a uma tragédia.

Tufte argumenta que com o programa as informações são mutiladas para caber nas pequenas telas — cada uma pode ter cerca de 40 palavras, e os gráficos gerados têm 12 elementos em média. Diz também que o programa induz o usuário a soltar trechos de informação sem qualquer ligação entre si. O New York Times procurou a Microsoft, e o diretor de produto para o Powerpoint, Simon Marks, disse que Tufte é fã de apresentações com grande volume de informações, e que seria possível fazer algo assim usando o Powerpoint, mas seria muito chato para a audiência. A notícia termina com o interessante comentário de que hoje, quando não se tem nada a dizer, você precisa da ferramenta certa para não dizê-lo.

É injusto acusar um programa de apresentação, ainda mais o Powerpoint sozinho, pela falta de criatividade e profundidade na maioria das apresentações que hoje somos obrigados a assistir. O problema está é nos usuários desses programas. De certa forma como disse o jornal, o computador ajuda pessoas que não teriam nada a dizer a apresentar, de maneira aparentemente muito profissional e moderna, sua incapacidade de apresentar um certo assunto. Aqui na coluna já citei outros exemplos de uso inútil da informática, que acontece quando a tecnologia é usada simplesmente por ser tecnologia, e não para resolver um problema de forma inteligente. Também já fiz uma matéria sobre apresentações, na qual entrevistei o professor Reinaldo Polito, autor do livro Recursos audiovisuais nas apresentações de sucesso. Dessa matéria e do livro seguem algumas dicas.

O erro mais comum das apresentações eletrônicas é o palestrante se limitar a ler o que está mostrando — parece até mentira, mas acontece com muita freqüência. Outro erro comum — que foi o dos engenheiros da Nasa — é pensar que os slides sozinhos explicam tudo, e distribuí-los como o material oficial da palestra. Recebo várias páginas com cópias de slides nos vários eventos que cubro, e elas normalmente vão para o lixo.
É possível usar o computador para mostrar elementos auxiliares na apresentação, mas não todo o conteúdo. Se você é um usuário viciado em Powerpoint, um bom exercício é imaginar uma apresentação que não use o computador. Ou pensá-la como se fosse usar cartazes e efeitos sonoros, e, por fim, pense em fazer uma apresentação na qual os slides não contêm explicações — apenas gráficos, animações e sons — e faça um folheto com o resumo do conteúdo, para dar aos ouvintes no fim da apresentação, no lugar da cópia dos slides. Será um favor à platéia, e uma forma de usar o Powerpoint sem peso na consciência…

 

Digitalizada e publicada online em 04/06/2017

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