Coluna Micros e Cia. – 28/01/2003

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AS BMWs DA POLÍCIA

Imagine que a Polícia Civil tenha comprado 37 BMWs, diretamente da Alemanha, superequipadas e confortáveis. Usando o dinheiro público.

Ora, sabe-se que o serviço feito pelos policiais, conquanto nobre, poderia ser feito com modelos baratos feitos e vendidos no Brasil. Se fosse preciso ter carros de maior desempenho, ainda assim seria possível encontrar alguns bem mais baratos e já suficientes para as necessidades. Certamente, o caso geraria escândalo pelo notório desperdício de dinheiro público.

E se as autoridades dissessem que a BMW (ou Mercedes, ou Cadillac, não importa) simplesmente deu os carros? Muito bondoso da parte dela, mas ainda assim o caso provavelmente seria investigado. E afinal, qual seria o interesse de uma montadora estrangeira em ser tão bondosa? Aí alguém descobriria que a Polícia um dia deverá mandar os carros para revisão numa concessionária da marca, comprar peças e acessórios da fábrica, empregar os mecânicos da marca. Isso tudo, claro, com dinheiro do povo.

Qual a justificativa? “Temos que andar como os policiais europeus”. Não cola. “É mais fácil de dirigir porque tem câmbio automático”. Bem, se qualquer pessoa aprende a dirigir trocando as marchas, se necessário, por que um policial não poderia fazê-lo? “É mais cômodo, porque tem ar-condicionado e direção hidráulica”. Sim, mas as ações policiais não precisam disso, principalmente se a conta vai para o bolso do cidadão.

ENQUANTO ISSO…

No caderno de informática de O Globo da semana passada, li na coluna da coleguinha Cristina de Luca sobre o lançamento da Coalizão para a Livre Escolha de Software pela Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico. Cid Torquato, diretor da câmara, leu no discurso o repúdio da coalizão a qualquer “iniciativa legislativa e governamental que obrigue a administração pública, direta e indireta, a dar preferência ou exclusividade nas compras públicas a softwares e sistemas operacionais…“. A partir daí, improvisou o texto: “… chamados ‘livres’, em detrimento de empresas e seus softwares comerciais ou proprietários“.

Apresentada assim, a Coalizão para a Livre Escolha de Software não parece estar preocupada com preceitos de liberdade como sugere o nome, e sim em ser uma instituição de lobby para pressionar o novo governo federal — que já se anunciou publicamente favorável ao software livre. É como se fosse criada uma ” Liga pela Livre Escolha de Veículos” que se anunciasse disposta a exigir do governo a compra de carros importados de luxo.

Prezado Cid, eu não sei onde você e os membros da coalizão pagam seus impostos, mas eu pago os meus aqui no Brasil e não quero de jeito nenhum ver o meu dinheiro sendo torrado com “BMWs para a polícia”. Claro que esta situação automobilística é hipotética e, espero, difícil de acontecer na realidade. Mas o que tem sido feito na área de tecnologia é simplesmente a mesma coisa, e ninguém faz nada do que seria feito se o caso fosse com carros e não programas de computador. Para a maioria absoluta das aplicações em que o governo usa micros — informatização de repartições e órgãos públicos, ações de inclusão digital, educação multimídia e a distância e até a hospedagem de sites oficiais —, já existem dezenas de programas em software livre, gratuitos e públicos, que podem cumprir os mesmos papéis de maneira muito mais racional e barata.

Os carros da BMW e outras grandes marcas têm qualidade e conforto incontestáveis. Sorte dos que podem comprá-los para uso pessoal. Para o governo, eles podem ser úteis para casos específicos — como limusine presidencial, por exemplo. Mas não para batida policial ou fumacê da dengue. Da mesma maneira, softwares proprietários têm seu lugar, mas não é nem um pouco decente o governo de um país, estado ou município gastar o mirrado dinheiro público comprando softwares que podem ser substituídos sem custo — ainda mais porque são quase todos estrangeiros. As diferenças na utilização entre um software livre e um proprietário são hoje quase tão pequenas e simples quanto uma marcha a ré em posição diferente.

Portanto, pessoal da coalizão, quem rala de sol a sol para pagar impostos no Brasil tem mais é que exigir que o governo, por uma questão de decência e responsabilidade, dê preferência total ao software livre, crie leis para determinar rigorosamente os critérios de licitação para softwares proprietários que sejam inevitáveis, e direcione todos os seus esforços de informatização para a adoção e o.desenvolvimento de programas realmente públicos, que podem ser copiados o modificados livremente. Onde Windows e S.A. forem indispensáveis, que fiquem. Mas onde houver alternativas, o dinheiro do povo deve ser economizado, e não esbanjado por comodismo.

 

Digitalizada e publicada online em 08/06/2017

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