História, tablet e Steve Jobs

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Uma edição especial de 1989 da revista Superinteressante trazia, na capa, a manchete “Um caderno a mais na pasta do estudante” para uma reportagem sobre uma idéia inovadora de o que seria o “computador do ano 2000”. Era o tablet. Há meses eu esperava passar para o computador essa reportagem, e o “empurrão” veio com as bobagens que coleguinhas da imprensa fanáticos por seus iPhones mas um tanto mal-informados andaram dizendo com a partida de Jobs.

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Solution 16, um all-in-one brasileiro

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O primeiro PC “all-in-one” do Brasil? O Solution 16, da Prológica, tinha monitor embutido e saída para monitor colorido CGA, teclado com acentuação e cedilha que podia ser encaixado no gabinete, alça para transporte, mais ou menos 10kg de peso, opção para HD e para se transformar num 286, e um sistema operacional exclusivo e “nacionalizado” que enfureceu a Microsoft americana. Apesar disso tudo, é hoje um ilustre esquecido da informática brasileira.

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Band, o canal do esporte???

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Eu juro que vou mandar esse artigo ou uma versão dele para o Téo José, para a direção da Bandeirantes, para os sites nacionais de automobilismo, e ainda vou traduzir para o inglês e publicar em tudo que é fórum e site que possa de alguma forma chegar às vistas dos responsáveis pelo marketing internacional da Fórmula Indy. O que a Rede Bandeirantes de Televisão faz com a Fórmula Indy e com todos seus espectadores no Brasil é um acinte, uma palhaçada, um desrespeito, uma esculhambação. TODO ANO. Dessa vez, resolvi aproveitar a fúria dos minutos seguintes às 500 Milhas de Indianápolis para escrever.

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Finalmente em restauração!

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Visto que nunca mais recebi nenhum dos outrora frequentes e-mails de leitores com perguntas e dicas sobre o meu Maverick GT, imagino que, para muitos, as velhas páginas datadas ainda de 2007 e sem atualização tenham dado a entender que eu tinha desistido do carro. Vendido, sei lá. Mas nãããããão — e finalmente ele está, agora, passando pela merecida, desejada e definitiva restauração!

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A moda da retroinformática

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Resolvi escrever o primeiro artigo de 2010 no meu site sobre o que deliberadamente decidi chamar de “retroinformática” — uma adaptação livre do inglês “retrocomputing” que é usado internacionalmente. Os computadores de 8 bits dos anos 70 e 80 são atualmente admirados e valorizados, e ainda hoje contam com usuários, fãs e programadores que os mantêm vivos e funcionando em todo o mundo.

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Liga não, Arrudão!

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Que beleza, hein, governador?? Enfiando no bolso uma nota preta, de origem um tanto quanto duvidosa, no que talvez tenha sido o maior flagrante de corrupção da história brasileira. Indignante sim, para alguns, mas não ligue não. Você tem tudo para pedir e receber, mais uma vez, o perdão do povão.

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É proibido viver

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A memória sempre falha, ainda mais com a ajuda do tempo, não me permitiu fazer grandes comparações entre a Guarapari que vi em setembro de 2009 e aquela que eu conheci há quase vinte anos, ainda fedelho. Não me lembrava se já havia tantos prédios modernos à beira-mar, por exemplo, entre tantas outras coisas que parecem diferentes. Mas uma coisa realmente não havia naquela época, e foi uma decepcionante surpresa descobri-la.

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Faça-se a luz, o chuveiro, a tomada…

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É estranho, sim: como é que só no final, depois de tanta coisa que precisou de ferramentas, é que se fala em instalação elétrica? Pois é. Culpa das luminárias e dos espelhos, das plaquinhas de plástico que emolduram tomadas, interruptores, etc. Não adianta instalar isso tudo antes de pintar a casa — e de nada adianta gastar uma bolada comprando o material elétrico antes da hora, como eu já fiz. As ferramentas, o pessoal liga com uma gambiarra nos fios que foram usados para a betoneira. Essa fase também exige generosidade na escolha de materiais, como fios, disjuntores, etc. Em hipótese ALGUMA se deve subestimar o que o engenheiro recomendou e comprar fios mais finos e disjuntores de maior potência, e as mudanças no projeto original devem ser muito bem discutidas com o eletricista responsável, para que ele já instale a fiação de acordo com as novas exigências.

  • Comprar cabos flexíveis grossos, também conhecidos como Sintenax, para ligação dos quadros de distribuição ao relógio. As cores são importantes: compre n do verde, n do azul e 3n do preto. Os cabos com bitola de 10mm são usuais para casas pequenas; 16mm para casas grandes; 25mm para prédios. Se você acha que o projeto exagerou na bitola dos cabos (como aconteceu comigo), discuta isso com o responsável técnico. E lembre-se que de nada adianta ter cabos grossos do relógio ao quadro de força, se os cabos que ligaram o poste ao relógio forem mais finos.
  • Comprar os fios de acordo com as cores e espessuras definidas no projeto, fita isolante (comece com 5 rolos de 20m: por mais fita isolante que se tenha, o pessoal da obra SEMPRE vai usar tudo e ainda vai pedir mais), graxa ou vaselina para passar os fios pelos conduítes, luminárias de teto e parede, lâmpadas, fita crepe.
  • Comprar os interruptores, tomadas, botões, etc. Os engenheiros costumam usar designações para os interruptores como “simples” e “three-way”, que são diferentes das designações dadas pelos fabricantes. Interruptor simples é… interruptor simples. Já o 3-way é encontrado como “interruptor paralelo”, e serve para ligar ou desligar uma lâmpada ou equipamento que pode ser comandado também por outro interruptor. O “interruptor intermediário” é também chamado de “4-way” e “chave cruz”, e é usado principalmente em escadas e corredores longos: com ele, é possível apagar uma lâmpada e acender outra em seqüência. Existem também os “interruptores bipolares”, simples ou paralelos, que podem ser usados, por exemplo, num banheiro sem janelas, em que o comando da luz também deve acionar um exaustor.
  • Comprar os disjuntores, conforme definido pelo projeto. Existem os de padrão DIN, normalmente brancos e em amperagens que não são bem do padrão que os engenheiros brasileiros usam; e os disjuntores NEMA, aqueles tradicionais pretos e um pouco maiores que os DIN. Cada fabricante obviamente defende seu padrão como o melhor, mas na prática, por enquanto, não há vantagem em um ou outro. A importância da escolha do padrão está ligada à escolha do quadro de distribuição que foi comprado, pois os disjuntores NEMA e DIN têm encaixe e parafusamento diferentes. Os DIN ocupam menos espaço no quadro: um quadro para 12 disjuntores NEMA pode abrigar 16 disjuntores DIN, com o uso de um adaptador, normalmente incluso no quadro. NUNCA se deve comprar disjuntores de capacidade maior do que a estabelecida no projeto, e também é fundamental verificar se existe um disjuntor exclusivo para cada equipamento de maior potência, como chuveiros.

Exigir do eletricista que todos os pares de fios que ligam tomadas e interruptores sejam identificados nas pontas (com fita crepe ou alguma tinta). Isso facilita muito a manutenção posterior, caso necessário.

Por onde começar?

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O mestre de obra passa a impressão de que você já devia comprar tudo logo de uma vez, menos o cimento, que estraga em 30 dias. Você tem a sensação de que já deve definir, antes mesmo de sair do chão, o material que vai usar nas janelas. Em que hora você deve se preocupar em comprar as portas? E que diabo de peça é essa que o pedreiro pediu pra poder montar o vaso?

Na construção da minha casa, eu tive que terminar uma parte dela primeiro, e isso me serviu de orientação básica para a construção do resto da casa. Em linhas gerais, tanto faz o tamanho da casa e o número de andares — os princípios são os mesmos, apenas as quantidades são diferentes. A organização da obra vai da necessidade de cada um. Uma pessoa, por exemplo, pode querer terminar todo o piso térreo, para já morar nele enquanto constrói os outros andares. Ou se pode também querer erguer a casa inteira até o telhado só na alvenaria, para depois passar à etapa de reboco e instalações, por exemplo.

Mas, posso dizer com a minha atual e ainda pequena experiência, o importante é começar. Entre tudo que é necessário para isso, estão a paciência, uma boa cautela financeira, muita organização, e uma boa preparação psicológica.

 

Antes de começar

Você certamente já tem uma idéia de como é a casa que você quer, não é? Se você é nerd como eu, certamente já tentou até mesmo esboçar algumas plantas baixas e maquetes em 3D com softwares de arquitetura como Floorplan, 3D Home, Chief Architect e outros. Ou talvez tenha apenas feito alguns desenhos em papel mesmo. Mas, se você não é tão sonhador assim, talvez você tenha simplesmente adorado uma casa que viu numa revista de arquitetura, e resolveu copiar o projeto dela igualzinho.

Pois bem: ótimo que você já saiba o que quer, mas contrate um arquiteto. É caro? É sim. Muitos se acham os próximos Niemeyers e você poderá ter a sensação de que o arquiteto quer te cobrar preço de um projeto de shopping center pela sua casa. Mas pesquise, encontre um arquiteto experiente e sem frescuras, e isso vai valer MUITO a pena. Se você já tiver os tais esboços que mencionei, ótimo, não se envergonhe e mostre a ele as suas idéias — você pode pensar que elas parecerão ridículas para um arquiteto de verdade, mas elas darão a ele uma boa noção de o que é que você está imaginando. Deixe que ele faça propostas, discuta com ele o que você aceita ou não aceita, o tipo de acabamento que você imagina, até mesmo um pouco dos seus planos futuros, como ter um atelier, um laboratório de fotografia ou um barco. No fim das contas, você vai ter em mãos um projeto já bastante definido, corretamente dimensionado, e que vai poder ser executado praticamente sem grandes mudanças durante a obra — ou seja, só isso já vai economizar tudo que você pagou ao arquiteto. Mais ainda, um projeto completo já vai vir com as plantas das instalações de água, elétrica, telefone, etc., e talvez até mesmo algum detalhamento sobre o acabamento, as escadas da casa, as bancadas de pias, etc. Definitivamente, não se faz uma obra só a partir de uma planta baixa.

Existem em alguns sites e nos classificados dos jornais alguns arquitetos que vendem, a preços bem mais em conta, projetos completos já prontos. É como se fossem “projetos de casas pré-moldadas”, e, mesmo sendo algo bastante improvável, vamos supor que você encontre um que considere perfeito. Ainda assim, você vai precisar do cálculo estrutural, que é tão ou até mais importante que o projeto em si. Parece compensador, fácil e barato fazer uma fundação comum, subir colunas de ferro e concreto acompanhando a espessura dos tijolos, mas se você fizer isso você rapidamente vai se arrepender. Normalmente o projeto de fundações e cálculo estrutural é feito por um engenheiro especializado, que possivelmente deverá ser pago à parte do projeto arquitetônico. Vale a pena: não tente economizar aqui.

 

Dinheiro

Falando em economizar, dinheiro é sem dúvida o grande problema de qualquer obra. Na verdade, obra só é mais barata do que comprar uma casa pronta (e, mesmo assim, nem sempre). Parece algo impossível de se realizar no começo, mas as seguintes dicas podem ajudar:

  • Antes de começar, junte o máximo de dinheiro que puder, pelo máximo de tempo que for possível. Faça a maior economia da sua vida e, com isso, evite ao máximo, e enquanto puder, cair na tentação de pegar um empréstimo bancário, ou pagar as contas da obra com cartão de crédito em prestações a perder de vista. Você sabe tanto quanto eu que banco nenhum é bonzinho e os juros não são brincadeira. O que acontece se você cair na tentação de pegar um empréstimo já no começo da obra? Tudo fica parecendo maravilhoso no começo: você tem bastante dinheiro para a fundação, a mão de obra, etc. Só que aquele montão de dinheiro vai embora rapidinho, e então você vai se ver devendo as calças a um banco, e sem dinheiro para comprar mais material e pagar a mão de obra. É praticamente a falência, e eu já cansei de ver gente vendendo casa pela metade porque não deu conta de pagar. Por isso, deixe para pegar um empréstimo, se for realmente necessário, só no fim da obra, na fase de acabamento, que é realmente a mais salgada mas pode esperar caso o dinheiro acabe antes da hora. E, se possível, antes de ir a um banco procure um amigo ou parente que tenha dinheiro e que confie em você. Qualquer coisa é melhor do que cair na ciranda do mercado financeiro!
  • Divida a obra por etapas e já planeje de antemão algumas paradas estratégicas para “respirar” financeiramente. Não tente tocar a obra sem ter uma confortável reserva de dinheiro que lhe permita comprar material “de emergência” — coisas como 20 sacos de cimento ou duas latas de verniz para ontem, coisa que acontece o TEMPO TODO numa obra, e que NUNCA vai te custar só dez reais. Algumas fases da construção são extremamente sugadoras de capital — o telhado, por exemplo — e depois delas é altamente recomendável você parar a obra, dispensar o pessoal por pelo menos uns 3 ou 4 meses, tentar economizar o máximo que puder do seu suado salário, e só então retomar a construção. Se você não fizer isso, tenderá a cair na tentação de pegar um empréstimo, e aí a bola de neve começa a rolar.
  • Onde que dá para economizar? Nos próximos artigos, tentarei indicar, sempre que possível, o que pode ou não sair mais barato. Entenda que uma casa é um tremendo patrimônio, que poderá ser seu pelo resto da vida, e por isso muitas vezes vale a pena gastar um pouco a mais e ter algo de qualidade que não vai lhe causar problemas tão cedo — e muitas vezes esse “um pouco a mais” é realmente pouco. Por outro lado, algo mais caro não é necessariamente de melhor qualidade, e muitas vezes a gente não percebe que, além do gasto inicial com a compra do material, também é preciso pensar no custo da mão-de-obra para trabalhar com esse material e, principalmente, na manutenção futura que poderá ser necessária. Você vai ver que atualmente tem muita coisa em construção que é pura esbanjação.

O jornalismo pós-diploma

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Ainda estou para viver o dia em que um criminoso, autor das maiores e mais inimagináveis barbáries possíveis às mãos de um homem, vai dizer que é bem tratado, confortável e respeitado em uma delegacia ou um presídio. Que foi detido com fineza e tranquilidade, sem violência, interrogado com justiça e em vigilância dos direitos humanos universais. Porque até hoje só ouvi o contrário: que não estava fazendo nada e já levou um tabefe antes mesmo de responder qualquer pergunta, que o delegado não deixou ele falar, que a cadeia é superlotada e fedorenta, etc etc etc. Não é que abusos assim não aconteçam, ou que tais denúncias não devam ser consideradas e apuradas; mas é claro que a tendência — até natural — é que o "elemento" esteja sempre querendo desqualificar a força que o reprimiu.

Numa votação surpreendente no dia 17 de junho de 2009, o Supremo Tribunal Federal derrubou a obrigatoriedade da formação específica e do diploma para o exercício do jornalismo. A ação que buscava isso foi movida pelo Sindicato de Empresas de Rádio e Televisão de São Paulo (Sertesp), com base no argumento de que a exigência do diploma foi criada na ditadura militar como uma forma de oprimir a livre expressão, algo que seria incompatível com os princípios da Constituição de 1988. Quem relatou o processo foi o polêmico presidente do STF, Gilmar Mendes, e apenas o ministro Marco Aurélio de Mello votou contra o pedido da Sertesp. Argumentou Gilmar que “o jornalismo e a liberdade de expressão são atividades que estão imbricadas por sua própria natureza e não podem ser pensados e tratados de forma separada”, e que o jornalismo é tão somente “a própria manifestação e difusão do pensamento e da informação, de forma contínua, profissional e remunerada”. Disse o ministro Cezar Peluso que o curso de Comunicação Social não é uma garantia contra o mau exercício da profissão, e que do jornalismo não se exige "garantia contra danos e riscos à coletividade, aferição de conhecimentos suficientes de verdades científicas exigidas para a natureza do trabalho, ofício ou profissão" que justificariam a exigência de diploma.

O Brasil é mesmo um país de contradições e estranhos contrastes. Pensam os ministros do Supremo que não se pode exigir qualificação especial de quem tem a responsabilidade de informar e ajudar a construir raciocínios de centenas, milhares, milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, tente alguém construir na própria casa um quarto a mais, sob o qual apenas estará si mesmo, e para isso comprar os mesmos materiais que já usou na casa, contratar pedreiros e os orientar para o serviço. Aparecerá em poucos dias, sabe Deus como e por fofoca de quem, a fiscalização do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura, ameaçando o cidadão com pesada multa e processo judicial por "exercício ilegal da profissão". Existem cada vez mais regulamentos, propostas e leis em todas as esferas do poder público para reconhecer, normatizar e exigir qualificação comprovada de profissionais como acupunturistas, esteticistas, optometristas, vendedores de churrasquinho e cachorro-quente na rua, vigilantes, porteiros, flanelinhas e até prostitutas. Mas jornalista, segundo o Supremo, qualquer um pode ser.

Gilmar Mendes, o relator do processo e presidente do Supremo, é declaradamente contrário aos mandados de segurança que são impetrados por bacharéis em direito que argumentam não ser necessária a aprovação no exame da Ordem dos Advogados do Brasil para o exercício da advocacia. Mas sobre o jornalismo não é surpresa que a situação tão parecida seja vista de forma oposta. Dentro dos rígidos limites impostos pelas empresas jornalísticas — que não querem de jeito nenhum arranjar encrenca com o mesmo Judiciário que julga seus inúmeros processos trabalhistas e comerciais –, os jornalistas colocaram Gilmar Mendes sob suspeita pela estranha forma com que concedeu dois habeas corpus sucessivos para libertar o banqueiro Daniel Dantas, investigado por corrupção e formação de quadrilha, com direito a uma enxovalhada pública ao juiz paulista Fausto de Sanctis, que havia expedido a prisão do banqueiro. O mesmo ministro anteriormente espalhara que teria tido seus telefones no Supremo grampeados, o que em momento algum se comprovou, e em episódio posterior exigiu que a TV Câmara tirasse da programação uma edição do programa "Comitê de Imprensa" em que o jornalista participante Leandro Fortes o criticava. Aliás, também na TV Câmara, uma reportagem minha sobre casos de impunidade e morosidade do Judiciário causou uma queixa do ministro à então diretora da TV. Diante destes e de outros episódios em que demonstrou sua pouca amistosidade com os jornalistas, só se podia esperar que de Gilmar Mendes viesse um parecer pela desmoralização, desqualificação e enfraquecimento da imprensa brasileira. É como o bandido dizendo que foi torturado na delegacia.

Surpresa foi o colegiado quase inteiro referendar e embasar tamanha esparrela, e confundir o exercício do jornalismo com a liberdade de expressão individual. Como bem lembrou o advogado da Federação Nacional de Jornalistas na audiência, quase todos os jornalistas e os veículos de comunicação sempre convidaram e receberam bem cidadãos comuns, especialistas e celebridades que desejassem expressar seus pontos de vista e participar da elaboração do produto jornalístico, nas formas de artigos, cartas dos leitores, debates e entrevistas. Sem qualquer necessidade de formação jornalística. Com exceção dos jornalistas que escrevem colunas e artigos, os repórteres, editores e assessores de imprensa não são donos das opiniões e ideias que divulgam. Elas são dos personagens, dos entrevistados que são ouvidos para a elaboração do texto jornalístico.

Ao jornalista cabe ter a competência e o discernimento para organizar essas opiniões e ideias de forma que elas sejam fácil e exatamente entendidas pelo público — e é daí que vem a necessidade de uma formação especial. A faculdade de Comunicação Social, e a especialização em Jornalismo em particular, incute nos futuros profissionais a visão técnica da comunicação e a responsabilidade social que ela exige e carrega em si, em princípios como o interesse público, o contraponto de opiniões, a repercussão sistematizada dos fatos, a comparação balanceada de informações. Engloba o tratamento científico e mercadológico da comunicação de massa, em aspectos que vão da cadeia produtiva da notícia e das peculiaridades das tecnologias de captação e difusão até os efeitos psicológicos e sociais que uma imagem, uma certa composição gráfica ou uma simples troca de palavras sinônimas pode causar. Estes e os vários outros temas da academia jornalística vão muito além de "uma sólida cultura, domínio do idioma, formação ética e fidelidade aos fatos", que o ministro Ricardo Lewandowski apontou sem propriedade como únicos requisitos para o exercício do jornalismo. Não havendo todo esse embasamento e o consequente comprometimento técnico-científico com a comunicação, corremos agora o risco de ver cada vez mais gente se dizendo jornalista apenas para participar das bocas-livres do high society ou para entrar de graça em festivais de cinema e shows. Ou para criar jornaizinhos e jornalecos sem qualquer credibilidade, com o único propósito de angariar dinheiro com anúncios de pequenos comerciantes. Ou, pior ainda, para usar o incontestável poder da comunicação para fins de auto-promoção pessoal ou política, exercendo favorecimentos, pressões e chantagens injustas e invisíveis à maior parte da audiência.

A liberdade de expressão a que se refere a Constituição é a das manifestações em público, do direito de imprimir em casa panfletos com críticas e opiniões e distribuí-los nas ruas, de falar ou não falar perante autoridades, de criar sites na internet sobre qualquer assunto ou ideologia sem risco de censura, entre várias outras possibilidades. Essa liberdade de expressão não significa necessariamente que tais manifestações devam ou sequer possam ser feitas por meio de veículos de comunicação de massa privados ou públicos. Esse tênue limite estabelecido pelo bom senso é o mesmo que nos impede de achar correto que qualquer açougueiro hábil possa exercer sua destreza em uma mesa de cirurgia, ou que um bom taxista possa ser companheiro de Felipe Massa na Ferrari. A confusão proposital foi uma argumentação mais do que cínica do Sertesp para embasar o processo, e pode ser um tiro pela culatra. Porque se a liberdade de expressão a que todo brasileiro tem direito inclui ter acesso livre aos microfones e teclados dos veículos de comunicação de massa, como concordou e concluiu o Supremo, as empresas de comunicação devem doravante ser obrigadas a garantir esse direito a todo e qualquer cidadão, de forma irrestrita, não é? Eu realmente quero saber o posicionamento do Sertesp quanto a isso, especialmente quando algum cidadão ciente dos seus direitos protocolar um mandado de segurança com este objetivo.

Certamente as empresas de rádio e televisão e os jornalões não contavam com essa interpretação colateral que ora surge. Na verdade, elas querem que a liberdade de expressão que se lixe. A intenção imediatista de tais empresas é permitir a contratação de "jornalistas" a preço de banana, que um profissional decente de nível superior jamais aceitaria. Também pesa no pedido a descoberta — tavez mesmo a imposição — de que o "povão" gosta é de artista apresentando programas e reportagens. Afinal, esse negócio de televisão educativa e combate à baixaria é coisa de teórico intelectual de academia. Já pensou a audiência de um Jornal Nacional apresentado pelo Tiririca e pela Cláudia Leitte?

Mas se "a regra geral é a liberdade de ofício", como disse em seu voto o ministro do STF Celso de Mello, que isso seja estendido a todos, pois. Para a sociedade é suficiente que as universidades se resumam aos cursos de Medicina e de Engenharia Civil. Para ser arquiteto basta saber desenhar, e o engenheiro que se vire com os cálculos. Qualquer pessoa que nasceu e cresceu na roça tem conhecimento e vivência para ser considerado agrônomo. Um torneiro mecânico criativo e bom de desenho tem o que é essencial para ser projetista de carros, e qualquer hackerzinho de 16 anos pode dar um baile em bacharelados em Ciência da Computação. Para ser político… bem, para isso há um bom tempo não precisa de nada. Toda a legislação brasileira é disponível em livrarias, bibliotecas e até na Internet, e visto que o direito à petição é de todos, não há necessidade de formação específica para advogados e juízes — aliás, interessante é lembrar que para ser ministro de um tribunal superior a Constituição não exige carreira judiciária, e sim apenas "notável saber jurídico". Então, parafraseando o ministro Lewandowski, basta ter o notável saber jurídico, ter senso de justiça, domínio da língua e formação ética. Muito concurseiro tem isso tudo de sobra — e, como a mesma achincalhada imprensa já mostrou à sociedade, até mais do que alguns de nossos superiores magistrados.